quarta-feira, 30 de junho de 2010

A síndrome do gênio


Como explicar o talento de uma criança que lia partituras aos 3 anos de idade? Por que o jeito estranho e genial de tocar música clássica? O que a ciência diz da habilidade de Cleonílson? No Rio Grande do Norte, ele é conhecido como "o homem-computador”. Como ele, um analfabeto, pode somar os dados e vencer uma máquina de calcular? E o que dizer da habilidade precoce detectada na escola?
“Ele começou a ser alfabetizado com três anos, no jardim de infância, Aos 5 anos, ele já tinha coleção de revistas", afirma a mãe de Felipe, a auxiliar de escritório Ana Lúcia de Oliveira.
Pessoas com habilidades que parecem sobre-humanas, como o pianista canadense Glenn Gould, morto da década de 80, podem ser vítimas da Síndrome de Asperger. Os sinais dessa síndrome aparecem nos primeiros anos de vida, mas muitos pais - e até médicos - tratam a criança como um pequeno gênio.
Uma inteligência rara, de memória muito acima do normal. Mas esses são sinais de um transtorno da mente ainda pouco conhecido pela ciência.
Felipe Oliveira, de 11 anos, tem fixação por determinados assuntos. "A área de interesse dele está sempre acima da idade dele", afirma a mãe de Felipe, a auxiliar de escritório Ana Lúcia de Oliveira.
“Computador, robótica, cibernética”, enumera o garoto.
"Ele acorda e fala nesse assunto. No almoço e no jantar também. O assunto com os colegas, com a gente, é só aquele assunto. Não muda”, diz a mãe de Felipe.
“Ele pode ser muito bom em matemática, fazer cálculos rapidamente. Ele pode ser muito bom em guardar lugares com muita facilidade, mas ele tem um prejuízo enorme de se relacionar, ele tem um prejuízo enorme de conviver", afirma Fábio Barbirato, chefe de psiquiatria da Santa Casa do Rio de Janeiro.
E esse prejuízo leva ao isolamento. No filme "Muito além do jardim", o personagem de Petter Sellers tem Síndrome de Asperger. Ele é incapaz de entender o duplo sentido das palavras.
Um exemplo: a frase "Aquela mulher é uma gata". Para uma pessoa que tem a síndrome, gata é apenas um animal - e um animal é diferente de uma mulher, ainda que seja bonita.
"Está chovendo canivete. A criança vai para debaixo da mesa, porque ela tem medo que esteja chovendo canivete. Ela entende ao pé da letra. Ela tem um entendimento, ela tem uma compreensão muito concreta daquilo ", explica Barbirato.
Mapeando o cérebro dessas pessoas, os neurocientistas começam a desvendar um outro mistério: por que esses pacientes não reconhecem as diferentes emoções no rosto do outro? Por que não enxergam a diferença entre raiva e alegria?
Veja o que acontece no cérebro de duas pessoas que estão olhando para um rosto. Em uma pessoa normal saudável, duas áreas são mais ativadas: uma é ligada ao reconhecimento das pessoas; a outra é a chamada amígdala, que não tem nada a ver com a amígdala em nossa garganta. Esta área do cérebro nos ajuda a processar as emoções.
Nas pessoas que têm Asperger, quase não se vê a ativação da amígdala. E a parte do cérebro que mais é ativada não é aquela ligada à identificação do rosto, mas outra, que reconhece os objetos.
"Eles têm uma dificuldade de expressão, mas não necessariamente uma ausência de sentimento. A forma de expressar o afeto ou a forma de manipular e lidar esse mundo afetivo é um pouco diferente da nossa. E muitas vezes, é por isso até que eles entram em quadros depressivos. As crianças com Síndrome de Asperger têm uma prevalência de quadro depressivo maior na adolescência”, declara o psiquiatra Marcos Mercadante.
A ciência ainda tenta entender outro sinal dessa síndrome: o olhar quase sempre perdido.
"Em um ambiente em que você tem um rosto na sua frente e vários objetos em volta, você biologicamente é movido a olhar para os olhos do indivíduo", diz o neuropediatra José Salomão Schwartzman, professor da Universidade Mackenzie.
Os pontos mais escuros numa foto mostram a direção do olhar de uma pessoa que não tem a síndrome. Ele se fixa entre os olhos, o nariz e a boca. Um equipamento que rastreia o olhar de pacientes com Asperger mostra que os pontos escuros não se concentram nos olhos.
"Eles não têm essa atração, de modo que, para eles, em um ambiente cheio de estímulos, os olhos vagam meio que aleatoriamente, olhando para todos os cantos", completa Schwartzman.
A equipe de especialistas em transtornos da mente estuda uma forma de rastrear o olhar de crianças - e até de bebês.
"O diagnóstico precoce é uma das coisas fundamentais. Quanto antes você consegue reconhecer, melhor é", recomenda Mercadante.
Mas a professora Sônia Maria Bardi levou anos até descobrir as razões do estranho comportamento do filho, Guilherme. "Meu filho chegou com sete anos. Então, quanto tempo que eu perdi procurando, investigando, até chegar no que ele tinha?", diz.
Guilherme é hoje acompanhado por uma equipe da Associação de Amigos do Autista, de São Paulo. A síndrome é considerada uma forma leve de autismo, ainda sem cura. Mas os pacientes podem - e devem - aprender as regras de convívio.
"E serem, eventualmente, muito competentes no que fazem. Basta que eles utilizem as suas habilidades e não fiquem presos às suas dificuldades", finaliza Schwartzman.
Para mais informações, visite o site da A.M.A. (Associação de Amigos do Autista – São Paulo)

2 comentários:

  1. O livro ntropologo em Marte de Oliver Sacks fala sobre vários outros gênios autistas interessantes

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